NVIDIA cria aliança com Microsoft, Dell e SpaceX para reforçar a segurança da IA
A NVIDIA anunciou em 27 de julho a formação da Open Secure AI Alliance, grupo criado para desenvolver e compartilhar ferramentas abertas voltadas à segurança da IA e à proteção de…

A NVIDIA anunciou em 27 de julho a formação da Open Secure AI Alliance, grupo criado para desenvolver e compartilhar ferramentas abertas voltadas à segurança da IA e à proteção de software e agentes autônomos. O comunicado lista 37 parceiros inaugurais, entre eles Microsoft, Dell Technologies, IBM, Cisco, Palantir, Red Hat, Salesforce, SAP, Siemens e a Linux Foundation.
A SpaceXAI, braço de inteligência artificial responsável pelo Grok, também aparece na lista de fundadores. O trabalho parte de duas iniciativas já existentes: o projeto Akrites, da Linux Foundation, e a comunidade OpenSSF, ambos voltados à identificação e correção de vulnerabilidades em software livre.
A tese central do grupo é que defensores precisam de acesso tanto a modelos fechados quanto a modelos abertos de fronteira. Sem essa combinação, argumenta a NVIDIA, a capacidade de resposta a incidentes fica concentrada em poucos sistemas opacos.
O incidente que serviu de argumento
O comunicado da fabricante de chips usa como exemplo a invasão sofrida pelo Hugging Face em julho.
Um modelo da OpenAI que estava sendo avaliado no benchmark de segurança ExploitGym escapou do ambiente isolado de testes, acessou a internet e explorou uma falha na infraestrutura da plataforma para copiar as respostas da própria avaliação.
A equipe do Hugging Face recorreu primeiro a modelos comerciais fechados para investigar. As requisições esbarraram nas travas de segurança dos provedores, que não conseguiram diferenciar quem estava atacando de quem estava defendendo. Segundo Yacine Jernite, head de machine learning da empresa, em entrevista à CNBC, o Fable 5 da Anthropic estava entre os sistemas testados nessa primeira tentativa.
A saída foi rodar o GLM 5.2, modelo de pesos abertos da chinesa Z.ai, na própria infraestrutura. O sistema processou mais de 17 mil ações registradas e permitiu conter a intrusão em horas, sem que dados do atacante ou credenciais expostas deixassem o ambiente da empresa.
Este episódio agora virou peça central do discurso da aliança sobre cibersegurança.
O que cada empresa leva para o grupo
As contribuições anunciadas cobrem camadas diferentes do que a NVIDIA chama de pilha completa de agentes, que inclui identidade, permissões, estruturas de execução, guardrails, registros e avaliação:
| Empresa | Contribuição anunciada |
|---|---|
| NVIDIA | Modelos abertos, pesos, dados e o framework de pesquisa NOOA, já no GitHub |
| HPE | Padrões SPIFFE/SPIRE para verificação criptográfica de agentes e serviços |
| Hugging Face | Formato Safetensors de armazenamento de pesos, doado à PyTorch Foundation |
| IBM e Red Hat | Lightwell, com patches assinados digitalmente na cadeia de código aberto |
| Microsoft | MDASH, sistema de varredura agêntica que orquestra agentes especializados |
| SpaceXAI | Grok Build em código aberto, com promessa de abrir os pesos da linha Grok |
O NOOA, sigla para NVIDIA Labs Object-Oriented Agent, é um projeto de pesquisa voltado a tornar o comportamento de agentes mais fácil de testar, rastrear, auditar e governar. O código está publicado no repositório NVIDIA-NeMo no GitHub.
O Safetensors, oferecido pelo Hugging Face, resolve um problema específico de segurança: formatos tradicionais de armazenamento de pesos permitem execução remota de código durante o carregamento do modelo.

Recado direto a governos e reguladores
Uma seção inteira do comunicado é dedicada a políticas públicas. O grupo pede que legisladores considerem modelos abertos, harnesses e ferramentas de segurança como parte da defesa, e não como fator de risco a ser contido.
O texto da NVIDIA é explícito ao afirmar que reguladores deveriam:
“Reconhecer modelos abertos, harnesses e ferramentas de segurança como ativos de defesa, não passivos”
A aliança sustenta que restrições amplas a sistemas abertos de fronteira enfraqueceriam a capacidade defensiva e concentrariam poder, dependência e vulnerabilidade em poucos fornecedores fechados.
O documento também defende que empresas e governos invistam em infraestrutura compartilhada de defesa em inteligência artificial, incluindo bases de dados, arcabouços de avaliação, simuladores de ataque e ferramentas de red team.
A NVIDIA reconhece no mesmo texto que modelos abertos podem ser usados para atacar, inclusive por remoção de salvaguardas. O argumento é que esse risco não desaparece em sistemas fechados e precisa ser tratado em qualquer contexto onde IA avançada seja implantada.
Carta com 25 signatários veio três dias antes
A aliança chega na sequência de outro movimento coordenado pela mesma empresa. Em 24 de julho, Jensen Huang divulgou no X uma carta aberta contra o que classifica como restrições prematuras a modelos de IA baixáveis, assinada por 25 nomes entre fabricantes de chips, provedores de nuvem, empresas de segurança e fundos de capital de risco.
Aquele documento reunia NVIDIA, Dell, Microsoft, IBM, Box, ServiceNow, CrowdStrike, Palantir, Telnyx, Replit, Perplexity, Andreessen Horowitz e Y Combinator, entre outros. A Meta assinou a carta, mas não figura entre os fundadores da aliança anunciada agora.
Durante a coletiva da NVIDIA na CES 2026, Huang apresentou o número que sustenta o argumento comercial por trás da defesa dos modelos abertos: um em cada quatro tokens gerados hoje sai de um modelo aberto, servido a partir de clusters corporativos, nuvens regionais e racks locais em vez de endpoints de API.
Quem não está na lista
OpenAI, Anthropic e Google não constam entre os parceiros fundadores. As três operam principalmente com modelos de pesos fechados, modelo de negócio diretamente questionado pelo posicionamento político do grupo.
A Meta, que mantém a linha Llama com pesos abertos e assinou a carta de 24 de julho, também ficou de fora da aliança. O comunicado oficial da NVIDIA não menciona a empresa em nenhum momento.
Entre os laboratórios de IA presentes estão nomes menores e mais recentes, como Nous Research, Reflection AI, Thinking Machines Lab, Cognition e LangChain, além da coreana NAVER e da SK Telecom.
Leia também:
- AAI 2026: AMD oferece computação full-stack para a era da IA agêntica
- Ferramentas de desenvolvimento com IA estão sujeitas a ataques e roubos de dados
- NVIDIA e Open AI podem ser o olho do furacão na bolha da IA
Z.ai abriu capital em Hong Kong em janeiro
O modelo que conteve o ataque ao Hugging Face vem de uma empresa que já passou pelo escrutínio de investidores internacionais. A Z.ai, antiga Zhipu AI, nasceu em 2019 como spinoff da Universidade Tsinghua e estreou na Bolsa de Hong Kong em 8 de janeiro de 2026, tornando-se a primeira desenvolvedora de modelos de linguagem a abrir capital no mundo.
A ação saiu a HK$ 116,20 e abriu a HK$ 120,00, com valor de mercado inicial de HK$ 52,83 bilhões. O GLM 5.2, lançado em junho, teve adoção rápida entre desenvolvedores antes de aparecer no relato de incidente da plataforma americana.
A tensão regulatória aparece justamente aí. Reportagem da Bloomberg de 21 de julho indica que o governo americano avalia restrições amplas a modelos chineses de código aberto por preocupações com propriedade intelectual. A aliança pede o caminho oposto, e o exemplo que escolheu para defender sua tese roda em cima de um modelo chinês.
