O mercado que a Intel abandonou nos anos 1980 voltou a ser estratégico na era da IA
Em 1985, a Intel enfrentava uma decisão que colocava sua história contra seu futuro. A empresa havia crescido fabricando memórias, mas perdia competitividade para fabricantes japo…

Em 1985, a Intel enfrentava uma decisão que colocava sua história contra seu futuro. A empresa havia crescido fabricando memórias, mas perdia competitividade para fabricantes japoneses. O lucro líquido, de US$ 198 milhões em 1984, praticamente desapareceu no ano seguinte.
Andy Grove, então presidente da Intel, e Gordon Moore, cofundador e CEO, discutiam havia meses o que fazer quando Grove decidiu mudar a pergunta: se os dois fossem demitidos e o conselho colocasse um novo CEO em seu lugar, o que essa pessoa faria?
Moore respondeu: tiraria a Intel do negócio de memórias. Grove então sugeriu que ambos saíssem pela porta, voltassem e fizessem exatamente isso.
A Intel abandonou as memórias, reduziu sua estrutura e concentrou recursos nos microprocessadores. A decisão ajudou a criar a companhia que dominaria a era do PC e se tornou um dos exemplos usados por Grove para explicar os pontos de inflexão estratégicos: momentos em que uma mudança no ambiente competitivo torna insuficientes algumas das premissas que sustentavam uma empresa.
Quatro décadas depois, essa história ganhou uma ironia inesperada. A Intel voltou a olhar para memórias.
A IA pode tornar as memórias estratégicas novamente
Lip-Bu Tan, atual CEO da Intel, revelou que a companhia estuda oportunidades envolvendo novas arquiteturas de memória. Ele próprio reconheceu sua mudança de perspectiva:
“Antes eu pensava: ‘Não invista em memória porque é um negócio de bens de consumo’. Mas as coisas mudaram.”
A Intel não anunciou uma nova linha de DRAM nem confirmou que pretende voltar a competir diretamente com Samsung, SK Hynix e Micron. O interesse de Tan está ligado a novas formas de integrar memória e processamento, especialmente em sistemas de inteligência artificial.
Isso faz diferença porque processadores e aceleradores de IA precisam movimentar enormes quantidades de dados. A capacidade computacional sozinha não resolve o problema: largura de banda, latência, consumo de energia e a distância entre memória e processamento também podem limitar o desempenho.
A oportunidade, portanto, não consiste necessariamente em ressuscitar o mesmo negócio abandonado nos anos 1980. O componente continua sendo memória, mas sua importância dentro do computador mudou. Há outra pista sobre o interesse da Intel. Em junho de 2026, a empresa contratou Seok-Hee Lee, ex-CEO da SK Hynix, para liderar áreas de encapsulamento avançado e integração de sistemas na Intel Foundry. Ao comentar seus planos para memória, Tan mencionou justamente a contratação de Lee.
A verdadeira lição da decisão de 1985
Grove usava o termo forças 10X para descrever mudanças suficientemente grandes para alterar a estrutura competitiva de um negócio. O número não precisava representar literalmente uma força dez vezes maior, o importante era reconhecer quando concorrência, tecnologia, clientes ou outras condições haviam mudado de ordem de grandeza.
A inteligência artificial pode estar produzindo justamente esse efeito em determinadas áreas. Não porque toda empresa precise reorganizar seus negócios em torno da IA, mas porque a tecnologia está mudando o valor relativo de componentes, processos e estruturas que antes pareciam consolidados.
A memória oferece um exemplo particularmente interessante. Nos anos 1980, a Intel concluiu que continuar investindo naquele mercado significava comprometer recursos que poderiam ser mais bem utilizados em microprocessadores. Em 2026, novas arquiteturas para IA podem tornar determinadas tecnologias de memória estrategicamente interessantes outra vez.
Uma estratégia pode estar correta em determinado ambiente e deixar de estar quando esse ambiente muda. É por isso que a famosa pergunta de Grove funciona nos dois sentidos. Ela não serve apenas para descobrir o que uma empresa deveria abandonar.
Serve também para questionar decisões antigas que se transformaram em dogmas. Em 1985, imaginar uma nova administração levou a Intel para longe das memórias, quatro décadas depois, a mesma lógica permite perguntar se permanecer longe delas ainda faz sentido.
